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ARDHIS reedita obras de Luiz Pereira Barretto que anteciparam cenário da vitivinicultura fluminense há mais de um século

ARDHIS reedita obras de Luiz Pereira Barretto que anteciparam cenário da vitivinicultura fluminense há mais de um século

A Academia Resendense de História (ARDHIS) reuniu, em 1º de agosto, no Centro Cultural Estalagem, em Itatiaia, pesquisadores, descendentes da família, pesquisadores da vitivinicultura brasileira e fluminense, e público interessado para a segunda edição da Cátedra Luiz Pereira Barretto — sessão que marcou o lançamento das reedições de dois dos últimos títulos do médico, cafeicultor e vitivinicultor resendense Luiz Pereira Barretto: A Viticultura no Brasil (1896) e A Viticultura em São Paulo (1905). Na ocasião foi lançado também o Catálogo Pereira Barretto, reunindo obras, opúsculos e artigos de jornais.

O evento amplia um ciclo de reedição de suas obras sobre viticultura iniciado em 2023, ano de criação da Cátedra, e de um século de sua morte. Na ocasião, a ARDHIS já havia trazido de volta La Viticulture à Saint Paul (1888), A Vinha e a Civilização (1896), o Guia Médico (1878) e A Arte de Fabricar o Vinho - Manual do Vinicultor (1900) — este último com glossário explicativo adicionado para o leitor contemporâneo. Com os dois lançamentos, a ARDHIS enriquece a coleção dedicada à obra vitivinícola de Barretto: seis títulos sobre vinho e um sobre medicina, publicados originalmente entre o final do século XIX e o início do XX. O próximo passo será reeditar os artigos e debates do Barretto de "A Província de São Paulo" e "O Estado de São Paulo".

Antes de se tornar viticultor, Barretto foi médico — formado na Universidade de Bruxelas, influenciado pelas descobertas de Pasteur em microbiologia. O presidente da ARDHIS, Marcos Cotrim, situou o personagem dentro de uma geração específica: intelectuais nascidos entre 1840 e 1850, educados sob forte influência de modelos europeus, que assumiram protagonismo nas décadas seguintes à Lei de Terras (1851) e à Proclamação da República (1889).

"Era uma geração pressionada por dois problemas concretos: o esgotamento das terras do Vale do Paraíba pela monocultura cafeeira e a crise de mão de obra após a Lei Áurea"

destaca Cotrim.

A resposta oficial foi a imigração — inclusive por meio de núcleos coloniais, como as sete fazendas que a União adquiriu em 1908 entre Mauá e o Planalto de Itatiaia. Os núcleos fracassaram como projeto de povoamento, mas deixaram um legado técnico: modelos de organização rural, sementes, apoio técnico — insumos que, segundo o historiador e presidente da ARDHIS, prepararam o terreno para a recepção da obra de Barretto.

Foi dentro desse cenário que Barretto se dedicou à viticultura, estabelecido em Pirituba, São Paulo, mantendo correspondência com produtores e universidades europeias sobre as particularidades do solo brasileiro.

O que a obra defendia

A pesquisadora Patrícia Keller Mendonça, coordenadora da Cátedra Pereira Barretto ao lado de Maria Cristina Godoy, chamou Barretto de "modernizador irrequieto": um intelectual oitocentista que não se limitava à sua formação médica. Segundo ela, a influência de Pasteur foi decisiva para que Barretto compreendesse o vinho não como simples reação química, mas como processo orgânico vivo — resultado da ação de leveduras.

Patrícia destacou que Barretto chegou a antecipar a viabilidade de produção vitivinícola em regiões então consideradas impróprias — incluindo o Nordeste brasileiro e o sul da Inglaterra, hoje produtor reconhecido de espumantes. Tecnologias atuais de monitoramento agrícola, como drones e satélites, foram citadas por ela como realização tardia de princípios que Barretto já defendia.

O escritor e pesquisador Rogério Dardeau, especialista em vitivinicultura brasileira, contextualizou esse legado dentro da história recente do setor: da chegada da vitivinicultura comercial pelas mãos de famílias italianas no Sul do país à busca atual por identidade regional. Dardeau atribuiu a Barretto a antecipação de uma técnica que só seria desenvolvida décadas depois — a dupla poda, implantada pelo agrônomo mineiro Murilo Albuquerque Regina, da EPAMIG —, que permite a colheita de uvas no inverno seco do Sudeste brasileiro, driblando o período mais chuvoso do ciclo natural da videira.

Território, memória e um conceito para entender o presente

A jornalista e pesquisadora Geiza Rocha, doutoranda em Geografia pela PUC-Rio, propôs uma chave de leitura para a obra de Barretto: o conceito de "fatos portadores de futuro" — ideias que, pequenas em seu tempo, carregam potencial de transformação que só se realiza décadas depois. Rocha recuperou a frase do próprio Barretto de que "a vinha é a planta colonizadora por excelência", capaz de reorganizar territórios e estimular enoturismo, gastronomia e economia local, e defendeu que o terroir não se resume a clima e solo — é também construção histórica e social.

Geiza destacou, ainda, que a reedição das obras cumpre uma função que vai além da preservação histórica: documentar conhecimento científico num momento em que a informação circula em volume inédito, mas de forma fragmentada.

O evento contou com a presença de descendentes da família Pereira Barretto — Mônica Pereira Barretto Barbosa de Oliveira, que recebeu um certificado da Cátedra. Maria Cristina Godoy apresentou descobertas feitas durante a pesquisa de reedição: referências elogiosas a Barretto em obras raras do início do século XX, como as de Celeste Gobatto e de Júlio Seabra Inglês de Souza — sinal, segundo ela, de que o reconhecimento de Barretto nunca esteve restrito a Resende.

"Ela foi reconhecida pelos grandes estudiosos da agricultura brasileira e permanece viva na literatura especializada. É justamente por isso que a reedição de suas obras se torna tão necessária. Preservar a memória é mais do que olhar para o passado. É oferecer às novas gerações a oportunidade de conhecer aqueles que ajudaram a construir o Brasil. Enquanto a obra de Luiz Pereira Barretto continuar sendo lida, estudada e compartilhada, seu legado permanecerá vivo."

defende Maria Cristina Godoy.

Por que isso importa agora

A sessão em Itatiaia aconteceu num momento de expansão acelerada para a vitivinicultura fluminense. O estado do Rio de Janeiro, que no século XIX viu sua produção vitivinícola concentrada — e depois murchar — na região de Nova Friburgo, hoje soma dezenas de vinícolas distribuídas entre a região serrana e o centro-sul fluminense, incluindo Paraíba do Sul, Areal, Teresópolis e Petrópolis. É um crescimento recente, ainda em curso, e que ganhou instrumentos de governança com a sanção da Lei Estadual nº 11.292/2026, que institui a Política Estadual de Fomento à Cadeia Produtiva da Uva, do Vinho e do Enoturismo.

"Retomar o legado desse cientista, médico, agricultor e filósofo se reveste da maior importância pois permite que os produtores de hoje possam entender as perguntas que os trouxeram até o presente momento, e formular outras, nesse constante redesenho de futuro do território fluminense."

ressalta a pesquisadora Geiza Rocha.

Autoria Geiza Rocha

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